A vida deixa marcas
Sobre imperfeição, tempo, matéria e presença humana.

Fiz um atendimento aqui outro dia para uma arquiteta e sua cliente, e ele me trouxe uma reflexão. Mostrei algumas opções, mas as peças de garimpo que tinham algum tipo de marca ou irregularidade não eram nem consideradas. As imperfeições contidas naquelas peças desagradavam. Eu entendo, você está pagando caro, não quer que pareça velho.
Um móvel antigo carrega pequenos riscos, desbotamentos, quinas gastas. A madeira muda de cor onde foi mais tocada. Um tecido afina onde alguém se sentou durante anos.
Essas alterações não são apenas danos. São registros.
A matéria guarda memória. Conta que aquele objeto pertenceu a alguém, ocupou um espaço, acompanhou uma rotina.
Por isso, quando a gente restaura um móvel, existe uma diferença importante entre cuidar dele e apagar tudo o que ele viveu. Dá para reforçar a estrutura, devolver o uso, repor o que se perdeu. Mas quando a gente tenta fazer ele parecer que nunca foi tocado, acaba tirando justamente o que lhe dava identidade.
E isso me fez pensar no desconforto que imperfeições podem nos trazer.
A perfeição nos conforta. E a busca por ela movimenta um mercado inteiro. A insatisfação permanente é um modelo de negócio extremamente rentável!
Nos vendem a perfeição como meta para que a gente esteja sempre querendo comprar a próxima coisa.
Só que perfeição qualquer máquina reproduz. Imperfeição, não.
Por isso nenhuma peça feita à mão é igual à outra.
A irregularidade é a assinatura de quem fez, e nos dias de hoje, em que tudo é produzido por máquinas aos milhões, em minutos, celebrar essas imperfeições é nos aproximar do que é ser humano.
Num mundo onde quase tudo vai poder ser gerado, copiado e refeito sem esforço, ter alguém por trás daquele fazer é o que será mais valioso! Temos que reconhecer o valor disso.
Aceitar as imperfeições pode nos libertar de uma vida de insatisfação.
E, sendo mulher, acho que isso tem um valor imenso porque essa busca nos deixa exaustas!
Depois que minha filha nasceu carrego uma sobra de pele na minha barriga que não me agrada. Esse descontentamento me fez pensar em como eu poderia comprar a resolução desse incômodo.
Mas resolvi mudar a forma de olhar pra isso. Hoje prefiro olhar pra ela como o registro de ter tido a honra de parir. A marca em mim de ter carregado minha filha, a coisa mais importante da minha vida, e que me traz alegria e aprendizado todos os dias.
Essa imperfeição é a marca da transformação que a maternidade gerou em mim, faz parte de quem eu sou.
Isso não significa romantizar o que nos incomoda nem que a gente não possa mudar, restaurar, melhorar ou transformar alguma coisa.
A vida é um eterno movimento!
A questão não é exatamente o que escolhemos mudar, mas de onde vem essa escolha e se isso te aproxima ou te afasta da sua essência.
As coisas que mais me interessam são aquelas que carregam alguma coisa que é difícil de explicar. Uma irregularidade, uma estranheza, um desbalanço sutil que me faz sentir que tem alguém ali dentro.
O mesmo vale para pessoas! E talvez seja isso que nos comova e nos aproxime, porque reconhecemos no outro nossa humanidade, nossa vulnerabilidade, nossa finitude.
A vida só acontece alterando-se a matéria. Inevitável.
Ela deixa vestígios nas nossas casas, nos nossos corpos, nos nossos relacionamentos. Desgasta algumas partes, fortalece outras, muda contornos, produz cicatrizes.
Tentar ignorar isso é também ignorar a história que as criou. É tornar a vida estéril.
Por isso quero propor que a gente olhe para a imperfeição de outro jeito. Não como defeito, mas como linguagem da nossa espécie. Um registro da passagem do tempo e das experiências que nos transformam.
Uma celebração das marcas que deixamos no mundo e que o mundo deixa em nós. Estar vivo é uma honra e um privilégio.
Como você encara as imperfeições? Você teria coragem de ter um abajur que um dia foi um vaso? Que passou por um restauro ou tem marcas de uso por ter tido outra vida antes dessa?
Seria um prazer ou um incômodo? Me conta!
Vou deixar aqui um link para peças que tiveram outra vida! E você pode vir até o ateliê montar a sua para ela carregar ainda mais história!
Vamos tomar um café e falar sobre isso.
Manu. Excelente reflexão!! No momento atual de completa desnaturalização e desumanização de quase tudo, alem da consagração do obvio e futil, é bom relembrar valores e questões caras ao humanismo tão combalido. A beleza é reconhecer em pequenos fatos de nosso dia a dia a grandeza que pode ter a nossa vida, algo que não podemos deixar desaparecer.