Por onde a cor escapa?
- MANUELA TOSSI
- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Um pensamento tem me acompanhado nos últimos tempos — nas feiras, nas conversas com clientes, nos projetos, nas combinações que crio há 25 anos:
Como é que a gente saiu de casas, ruas e objetos vibrantes… para viver em ambientes quase monocromáticos?
Essa pergunta não é só estética.É emocional.Cultural.E, surpreendentemente… biológica.

O mundo já foi muito mais colorido
As ruas eram uma festa visual.Carros turquesa, vermelho tomate, amarelo sol, verde pistache, rosa pastel.Lavanderias coloridas.Fachadas alegres.Objetos cotidianos que transmitiam vida.
E nada disso era considerado “ousado”.Era simplesmente o normal.
Dentro das casas, a festa continuava.
Cozinhas laranjas.Salas mostarda.Quartos rosa.Estantes azul bebê.
E não — ninguém surtava com isso.Cor representava futuro, tecnologia, modernidade, prosperidade, alegria doméstica.
Então… o que aconteceu?

Quando a casa deixa de ser lar e vira ativo financeiro
Quando o imóvel passou a valer mais como investimento do que como abrigo, nasceu o mantra:
“Ambiente neutro vende mais rápido.”
E assim se espalhou a ideia de que cor “desvaloriza”, enquanto o neutro “agrada mais gente”.
A indústria fez o resto
Para produzir em massa, é mais barato fabricar menos cores.O bege e o cinza são seguros.Menos variação.Menos estoque.Mais lucro.
E então a internet entrou no jogo.
O algoritmo é apaixonado pelo neutro
Por quê?
fotografa bem
edita fácil
combina com tudo
é replicável
é “aceitável” por todos
O que funciona visualmente vira trend.O que vira trend vira modelo.O que vira modelo vira regra.
De repente, milhares de casas começaram a parecer a mesma casa.
A psicologia por trás do neutro
Essa é a parte que mais vejo no dia a dia:
As pessoas não têm medo de cor.Têm medo de errar.
Medo de ser “cafona”.Medo de chamar atenção.Medo de destoar da referência “segura”.
É o medo do julgamento.E também do desejo de pertencimento.
O neutro virou um escudo emocional:
“Se eu não ouso, não erro.Se eu não erro, não sou criticada.”
E, claro, as redes sociais reforçaram isso.A pasteurização do gosto veio como consequência.A globalização do neutro.
Que chato. Que triste. Que vazio.
E ainda tem a vida acelerada
Hoje, com a loucura do tempo, das agendas, da exaustão, o neutro parece “mais fácil”.Menos decisão.Menos risco.Menos pensamento.
A sobrecarga de informação nos faz querer o caminho mais simples — mesmo que simplificar signifique apagar nossa própria personalidade.
Mas a ciência nos devolve a cor
As cores:
aumentam a produção de dopamina
ativam memórias afetivas
estimulam sensação de prazer e aconchego
regulam humor e foco
O neutro acalma — e tudo bem.
Mas a cor nutre.
E isso também é essencial.
Não é a cor o problema — é a falta de projeto
A resposta não é “pintar tudo”.Nem “comprar tudo colorido”.Nem sair fazendo mudanças aleatórias.
O que dá sentido é o projeto.A intenção.As camadas.
Meu trabalho nunca foi “colorir ambientes”.
Meu trabalho sempre foi contar histórias através da luz, da paleta, da textura e da presença.
E acho que você pode pensar a sua casa assim também.
Como trazer cor com segurança? Comece pequeno.
Traga um ponto da sua cor preferida:
almofadas
um quadro
um tricot
uma peça afetiva
e, claro — um abajur nosso, que além de cor traz aconchego e vida
Mas isso não basta.
Coloque à vista o que te faz sorrir:o souvenir da viagem,a foto da infância,a xícara da sua avó,o carrinho da coleção abandonada,o descanso de panela que não combina com nada — mas combina com você.
Não tenha medo de ser “estranho”.Ou “cafona”.Ou “diferente”.
O seu lar só existe porque você existe dentro dele.
Seja colecionadora da sua própria vida
Aposte na cor.Aposte na personalidade.Aposte na história.
Juntos, podemos fazer esse mundo — e seus interiores — interessantes de novo.






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